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Um pouco de carbono, um pouco de cálcio, um pouco de zinco, um pouco de sódio, um pouco de potássio, muita água, um pouquinho só de enxofre... E muita, mas muita vontade!

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

A Boa e o Fluminense

Éramos um grupo pequeno, porém unido, de amigos. É quase certo que o grupo ainda existe; na verdade, conforme a vida foi exigindo maiores responsabilidades, o grupo foi aos poucos se separando; Mas só para alguns, porque para uns outros, o tempo foi se encarregando de apertar os laços das relações mútuas ainda mais.
A cidade em que vivíamos era uma cidade pequena; não se tinha muito o que fazer, é verdade. Mas ainda assim podia-se beneficiar grandemente, pois estávamos sempre prontos para a Boa. A Boa era o seguinte: sentávamos no banco da praça, comprávamos refrigerante barato e falávamos de toda a sorte de assuntos de maneira mais pessoal impossível. Vem naturalmente que aos poucos fomos nos conhecendo melhor; muitos dos grandes momentos memoráveis de nossas vidas se deram durante as Boas; É verdade que não acontecia muita coisa durante as Boas, mas podíamos discutir a situação a nossa volta e teorizar, tramar maquiavelicamente, todo o destino de tudo o que conhecíamos naquela época.
É interessante perceber como a vida vai mudando. Inicialmente nós juntávamos a qualquer hora do dia para as Boas. Qualquer hora MESMO, e não eram raros os dias em que víamos o Sol nascer enquanto falávamos sobre como deve ser bom ser um ditador, apesar de nenhum de nós possuir nem poderes nem dinheiro necessários para tal, provavelmente por conta de uma decisão divina equivocada, pois se acaso tivéssemos, o buraco seria mais em baixo.
Todavia, conforme fomos envelhecendo, arrumamos empregos, o que aumentou consideravelmente a carga de responsabilidades a qual devíamos nos submeter cada dia, mas ainda assim, não foram poucos os momentos em que ainda virávamos a noite durante as Boas, apesar do resultado de um dia virado ao trabalho ser geralmente deplorável.
Aos poucos cada um começou a namorar, e, embora todas as namoradas estivesses inseridas dentro do contexto de amizade de nosso grupo, somava-se ainda mais responsabilidade, e as Boas já não eram tão frequentes.
Eu não acredito em deus, assim, com letra minúscula. Mas alguns de nós ainda acreditam que deus escreve certo por linhas tortas, isso quando não quer ser direto, pois quando quer, manda logo sinais claros ao invés de pequenas figuras de linguagem. Chegou portanto, o momento em que criávamos a certeza de que queríamos viver ao lado da pessoa certa; Se alguns já a haviam encontrado, para outros ainda não estava tão claro; Na verdade, era um estopim, e, uma vez aceso, criou-se uma reação em cadeia sem precedentes, na qual me incluo.
Eis que, de todos nós, o fluminense foi o primeiro a se casar. Ele não era realmente fluminense; a verdade é que eu não sei ao certo onde o fluminense nasceu; sendo ou não no estado do Rio de Janeiro, a razão de o chamar de fluminense é porque, antes de mais nada, o Fluminense era a sua terceira maior paixão. Tão certo posso te dizer que era a terceira, pois o fluminense sempre foi (e é) mais que tudo apaixonado por sua atual esposa, até o momento em que marcou o seu maior gol: uma menina linda que já enverga o manto e que o faz afirmar categoricamente que os seus trinta dias "são os melhores trinta dias de sua própria vida".
O casamento do fluminense foi o estopim que se acendeu. Aos poucos começávamos a perceber para onde a vida nos levávamos, aceitando de braços abertos, e aos poucos começamos a tramar nossas vidas no futuro, agora não mais um grupo de amigos irresponsáveis (no caso de uns poucos; na verdade, no caso da maioria, "irresponsáveis" apenas quer dizer "com poucas responsabilidades") mas um grupo de pessoas com sede de casar e criar família, "comprar arroz para viver e flores para ter por que viver". Por quem viver.
As Boas ainda acontecem; raramente, é verdade. Mas com entusiasmo renovado. Porém, não teorizamos mais como dominar o mundo, pois aos poucos descobrimos que podemos viver com coisas menores do que tanto poder e tanto dinheiro, mas mais intensas e revigorantes do que qualquer outra coisa que por ventura experimentamos durante toda a nossa vida.

Ces são foda pra caralho os caras.
Chegou em casa após a aula com uma vontade inabalável de escrever, abriu o editor de textos com um comichão nos dedos e se deu conta de que não tinha nada mais interessante pra escrever do que os processos de separação química ou soluções analíticas para problemas da natureza.

Algo deve estar muito errado.

Terça-feira, 13 de Julho de 2010

"...Mas eu juro que, lá no cantinho, assim, meio escondidinho debaixo de tantas coisas, há felicidade por envelhecer; tem bolo, doces, salgadinhos e refrigerantes, e, apesar da solidão, sobra a consciência de que a vida é nada mais que uma sucessão de dias."

Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

A propósito...

Tenho andado distraído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso, mas agora é diferente
Estou tão tranquilo e tão contente...

Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

Ao controlador:

"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana.
Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta"

Albert Einstein

Rita Firmina estava nua. Não conseguia esconder o brilho de seus olhos, evidente até mesmo no escuro. João José, prostrado em um canto do quarto, assistia pasmo ao show particular; nunca imaginara que, por detrás daquele jovem rosto róseo, Rita Firmina escondia uma mulher sedutora com todos os mais legítimos sortilégios demoníacos necessários para prender a atenção de um homem extasiado, hora por sua beleza, hora por seus belíssimos movimentos.

Carlos Rodolfo aproximava-se de casa. "Havia sido um duro dia", pensou, lembrando das dificuldades corriqueiras do trabalho. Lembrou também da conversa que tivera com o Marcão na hora do almoço. Marcão descobrira estar sendo traído. Logo ele, que era apaixonado pela esposa. Marido exemplar, só deixava faltar na hora do futebol. "Ah, pera lá!", fazia ele alguma pilhéria, dizendo que "copa do mundo é só de quatro em quatro anos, pô!", enquanto ele, ele não, estava lá todo dia para satisfazer a busca incessante de atenção de sua esposa.
Coitado.
Carlos Rodolfo era um sentimental por nascimento; não deixou de se compadecer um só minuto com a dor de seu amigo, mas não conseguiu esconder uma pontada de satisfação enquanto lembrava da Sua Rita Firmina, sua fiel e adorada Rita Firmina.

João José não conseguia mais se segurar. Em um movimento brusco, agarrou fortemente Rita Firmina pelos cabelos longos, puxou-a para seu colo, e, com um único, mas vigoroso movimento, atirou-se junto com a mulher sobre os lençóis limpos e brancos da cama.

Morcegos e aves noturnas dispararam em revoada quando a arma cuspiu seu projétil assassino. Carlos Rodolfo não pensou duas vezes; nem mesmo que eles tentassem esconder alguma coisa, não havia o que esconder. Os dois corpos, trespassados no crânio pela mesma bala, jaziam imóveis sobre o lençol rubro, outrora branco quando os amantes se deliciavam em suas brincadeiras idílicas.
Ainda com a arma fumegante, Carlos Rodolfo deixou-se cair sobre a poltrona. Acendeu um cigarro, enquanto tentava se lembrar quando foi a última vez que ele e sua finada esposa haviam brigado. A verdade era que eles pareciam que nunca brigavam. Rita Firmina portava-se como uma madame em todas as ocasiões; era gentil com todos, até mesmo com desconhecidos, pobres e indigentes; preferia uma boa conversa à altercações verborrágicas. Talvez aí estivesse o caráter "Acima de Qualquer Suspeita", pensou. Mas isso não importava agora.

Levou a pistola até a boca, e um segundo tiro se fez ouvir. A decoração sinistra do lençol repetia-se agora na parede da sala, tal qual os frutos de uma árvore macabra. A cabeça do controlador Carlos Rodolfo tombou para o lado, arrastando alguns pedaços quebrados do crânio, embebidos no sangue morto ainda quente. Um ruído se fez ouvir quando o crânio do controlador caiu no chão. Frio, triste e espontâneo. Instantâneo. Assim terminou, como o momento em que percebeu que o amor não era um jogo de controle de ações, nem mesmo disputa de poder. Agir como se fosse tal seria provocar tragédias sanguinolentas, como a que acabara de acontecer. Mais ainda: seria provocar decepções mortais, como a que acabara de acontecer.

"Há momentos, e você chega a esses momentos,
em que de repente o tempo pára e acontece a eternidade"
Dostoievski

Quinta-feira, 3 de Junho de 2010

Colorido Artificialmente

-Doce vingança, ahn? - Ele já havia percebido, e conforme o tempo passava, isso tornara-se cada vez mais evidente, até chegar no insuportável. Ele desconhecia qualquer esforço que ela fazia para tratá-lo dessa maneira; se é que fazia algum esforço, que fique claro; pois o maltratava de maneira tão natural que ele as vezes nem acreditava no que os próprios sentidos revelavam.
"Isso doía", ele queria dizer. Mas não podia. Era tarde. Acordaria a todos. Era mais uma dor que, por dever, seria sufocada.
E foi tentando sufocar sua dor que ele concluiu a hipótese sobre a vingança. Ela, o avatar feminista, o colosso com a coruja em um ombro e a águia em outro, queria fazê-lo sofrer. Queria descontar a dor pelas mentiras engolidas, queria descontar pelos momentos de solidão a dois, queria descontar e até mesmo fazê-lo pagar com o sangue pela dedicação não reconhecida.

Ela só se esquecera de uma coisa: ele não gostava de sofrer.

Terça-feira, 1 de Junho de 2010

Interlúdio

"-UM ELFO?!
Gritou o meio-orc espantado. Não acreditava no que os próprios olhos viam. Não durou nem meio minuto, perdera vergonhosamente no braço de ferro para um elfo! E na frente de todo o Rabo-de-Troll! A notícia se espalharia feito fogo em capim seco, pensou ele. Em breve não conseguiria mais serviços, e ainda teria de aguentar a pilhéria dos heróis e das pessoas comuns da cidade. – HÁR HÁR HÁR! Lá vai o meio-orc que perdeu para um elfo! – Não, ele não aguentaria.
Subitamente agarrou o machado, e ameaçou desferir um potente golpe. Mas antes que o fizesse, sentiu um punho enorme esmigalhar-lhe o maxilar. Tombou para trás, enquanto o grandalhão Järi recolhia o forte punho vencedor. – Guardas! – Gritou o taberneiro, enquanto os olhares da multidão precipitavam sobre ele.
Levantou-se quando o pequeno grupo de guardas adentrou o recinto. As pessoas estavam assustadas. Não acreditavam que aquele gigante loiro, tão forte quanto um legítmo bárbaro das montanhas era um elfo. Elfos eram tão... delicados, pensavam. Mas não restava dúvida; as orelhas pontudas eram a prova cabal da natureza de Järi.
-Não se preocupem, eu vi tudo. – Ouviu Järi. Virou-se, e lá estava um senhor de manto branco, com um peitoral decorado com o emblema da guarda do castelo. – Foi só uma briga. Sim, dessas que acontecem todo dia! Levem esse meio-orc arruaceiro daqui!
-Sim, senhor! – Rapidamente os guardas agarraram o meio-orc, que, desacordado, sangrava em profusão.
Desde que resolvera deixar seu lar nas florestas montanhosas, sua vida havia mudado bastante. Järi cansara de viver escondido nos jardins dos elfos. Para ele, isso só os tornava tão delicados e fracos como as próprias flores, e isso os privava do instindo e das habilidades necessárias para enfrentar os perigos e desafios de um mundo tão conturbado. Então escolhera um belo machado de duas mãos no tesouro de seu pai e saiu pelo mundo afora, procurando serviços em troca de alguns punhados de moeda, e, quem sabe, de algum reconhecimento.
-Fiquei realmente impressionado. – disse o velho. Nunca vi um elfo tão for...
-Não me diga que o senhor também... – disse Järi com um levre brilho de indignação nos olhos – Não me diga que o senhor também...
-Não, não, longe de mim, meu jovem. Não sou desses que taxam as pessoas pelo que elas nos mostram na primeira impressão. Aquele meio-orc mereceu o que ganhou.
-Não entendi porque o senhor me livrou dos guardas. – disse, enquanto sorvia outro longo gole de cerveja da caneca.
-Eu? Não, eu não fiz nada. Foi você mesmo que fez.
-Mas...
-Deixe, meu jovem. Logo você vai entender. Me acompanhe até o castelo. Quero lhe fazer uma proposta.
Desde que chegara a Nahor, Järi não tivera muitas propostas. Aquela era uma região pacata, e salvo por algumas brigas de taberna, não era muito fácil encontrar alguma ação. Isso o inclinara irresistivelmente a aceitar o convite do velho.
-Encontre-me no castelo ao por dos sóis. Não se preocupe, os guardas o deixarão entrar sem problemas. Quero que conheça alguns amigos... tenho certeza que eles gostarão muito de você, e você deles. Adeus. – disse, enquanto jogava uma pequena bolsa de moedas encima da mesa.
Järi a pegou. Estava cheia de moedas, todas de ouro! Então era isso que ganhavam por amassar a cara de meio-orcs impertinentes? Se era mesmo, então a sorte começara a lhe sorrir. Diferente da sorte do meio-orc, que, além de estar com a cara quebrada, ainda teria de enfrentar longos dias na prisão. Mas isso sim, pensou, era o que ganhavam por mexer com as pessoas erradas. Acima de tudo, por mexer com o elfo errado.
Pois esse era um elfo que não levava desaforo para casa."