Éramos um grupo pequeno, porém unido, de amigos. É quase certo que o grupo ainda existe; na verdade, conforme a vida foi exigindo maiores responsabilidades, o grupo foi aos poucos se separando; Mas só para alguns, porque para uns outros, o tempo foi se encarregando de apertar os laços das relações mútuas ainda mais.
A cidade em que vivíamos era uma cidade pequena; não se tinha muito o que fazer, é verdade. Mas ainda assim podia-se beneficiar grandemente, pois estávamos sempre prontos para a Boa. A Boa era o seguinte: sentávamos no banco da praça, comprávamos refrigerante barato e falávamos de toda a sorte de assuntos de maneira mais pessoal impossível. Vem naturalmente que aos poucos fomos nos conhecendo melhor; muitos dos grandes momentos memoráveis de nossas vidas se deram durante as Boas; É verdade que não acontecia muita coisa durante as Boas, mas podíamos discutir a situação a nossa volta e teorizar, tramar maquiavelicamente, todo o destino de tudo o que conhecíamos naquela época.
É interessante perceber como a vida vai mudando. Inicialmente nós juntávamos a qualquer hora do dia para as Boas. Qualquer hora MESMO, e não eram raros os dias em que víamos o Sol nascer enquanto falávamos sobre como deve ser bom ser um ditador, apesar de nenhum de nós possuir nem poderes nem dinheiro necessários para tal, provavelmente por conta de uma decisão divina equivocada, pois se acaso tivéssemos, o buraco seria mais em baixo.
Todavia, conforme fomos envelhecendo, arrumamos empregos, o que aumentou consideravelmente a carga de responsabilidades a qual devíamos nos submeter cada dia, mas ainda assim, não foram poucos os momentos em que ainda virávamos a noite durante as Boas, apesar do resultado de um dia virado ao trabalho ser geralmente deplorável.
Aos poucos cada um começou a namorar, e, embora todas as namoradas estivesses inseridas dentro do contexto de amizade de nosso grupo, somava-se ainda mais responsabilidade, e as Boas já não eram tão frequentes.
Eu não acredito em deus, assim, com letra minúscula. Mas alguns de nós ainda acreditam que deus escreve certo por linhas tortas, isso quando não quer ser direto, pois quando quer, manda logo sinais claros ao invés de pequenas figuras de linguagem. Chegou portanto, o momento em que criávamos a certeza de que queríamos viver ao lado da pessoa certa; Se alguns já a haviam encontrado, para outros ainda não estava tão claro; Na verdade, era um estopim, e, uma vez aceso, criou-se uma reação em cadeia sem precedentes, na qual me incluo.
Eis que, de todos nós, o fluminense foi o primeiro a se casar. Ele não era realmente fluminense; a verdade é que eu não sei ao certo onde o fluminense nasceu; sendo ou não no estado do Rio de Janeiro, a razão de o chamar de fluminense é porque, antes de mais nada, o Fluminense era a sua terceira maior paixão. Tão certo posso te dizer que era a terceira, pois o fluminense sempre foi (e é) mais que tudo apaixonado por sua atual esposa, até o momento em que marcou o seu maior gol: uma menina linda que já enverga o manto e que o faz afirmar categoricamente que os seus trinta dias "são os melhores trinta dias de sua própria vida".
O casamento do fluminense foi o estopim que se acendeu. Aos poucos começávamos a perceber para onde a vida nos levávamos, aceitando de braços abertos, e aos poucos começamos a tramar nossas vidas no futuro, agora não mais um grupo de amigos irresponsáveis (no caso de uns poucos; na verdade, no caso da maioria, "irresponsáveis" apenas quer dizer "com poucas responsabilidades") mas um grupo de pessoas com sede de casar e criar família, "comprar arroz para viver e flores para ter por que viver". Por quem viver.
As Boas ainda acontecem; raramente, é verdade. Mas com entusiasmo renovado. Porém, não teorizamos mais como dominar o mundo, pois aos poucos descobrimos que podemos viver com coisas menores do que tanto poder e tanto dinheiro, mas mais intensas e revigorantes do que qualquer outra coisa que por ventura experimentamos durante toda a nossa vida.
Ces são foda pra caralho os caras.
